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‘Vamos mostrar o Brasil para o mundo’, diz John Elkann, presidente do conselho da Stellantis

John Elkann, de 49 anos, é herdeiro da família Agnelli, fundadora da Fiat. Aos 28 anos, viu-se com a missão de tirar o grupo italiano da beira da falência. Em 2014, a Fiat comprou a americana Chrysler e, em 2021, uniu-se ao grupo francês Peugeot (PSA), formando a Stellantis. Mas 2024 não foi bom para a Stellantis. O lucro líquido caiu 70% e acabou por levar à saída do CEO, Carlos Tavares. Um sucessor será anunciado neste semestre. Elkann, que já era presidente do conselho de administração, assumiu interinamente o comando executivo da Stellantis. Ele também é chairman da Exor, holding da família que, além da Stellantis, tem participações majoritárias em empresas como a Ferrari, a revista The Economist e o time Juventus. Sua fortuna pessoal é estimada em 2,9 bilhões de dólares.

Em março, Elkann — que viveu no Brasil na infância e fala fluentemente português — esteve na fábrica da Stellantis em Betim (MG) para inaugurar o TechMobility — Centro Stellantis de Desenvolvimento de Produto & Mobilidade Híbri­da-Flex, parte de um investimento de 30 bilhões de reais previstos no país até 2030. Por aqui, a empresa é líder de mercado e registrou um aumento de 7% nas vendas em 2024. “Vamos aproveitar a visita ao Brasil para mostrar ao resto do mundo que a Stellantis está indo bem”, disse Elkann na entrevista a seguir. Confira:

De que forma a escalada nas tarifas de importação entre os países pode mudar o comércio mundial e o setor automotivo? O mercado automotivo global sempre foi dinâmico, passando por diversas transformações ao longo do tempo. Como uma empresa global, a Stellantis tem flexibilidade para se adaptar às necessidades específicas dos diversos mercados em que atuamos, sempre ouvindo nossos clientes, priorizando o diálogo e uma visão de longo prazo. Não há dúvida de que mais tarifas de importação trariam mudanças.

Como estão as negociações com o governo Trump em relação a isso? Estamos em diálogo contínuo com a administração dos Estados Unidos e acreditamos que, se as mudanças políticas forem implementadas de forma gradual, seus efeitos negativos de curto prazo podem ser mitigados. A longo prazo, ajustes estratégicos, diversificação de mercados e o estabelecimento de acordos comerciais equilibrados e estáveis ao longo do tempo podem gerar novos equilíbrios e até, como no caso do Brasil, oferecer oportunidades de crescimento para a produção local.

O senhor chegou a dizer que o Brasil é uma referência estável em um cenário de incertezas. Por quê? Para nós, o Brasil possui um ambiente regulatório de maiores certezas e também demonstra a ambição de trabalhar mais com os recursos que tem. A inauguração do centro de desenvolvimento Bio-Hybrid do Fiat Híbrido é um marco importante, que permite ver como no Brasil existe inovação e capacidade de pensar as tecnologias dos melhores carros também para o meio ambiente.

Se as tarifas de 25% anunciadas por Trump forem mantidas, como isso vai impactar o plano do grupo de superar o mau desempenho de 2024? O objetivo da Stellantis é fazer um bom 2025. Não estamos contentes com o que foi 2024 e queremos fazer melhor. Não sabemos o que vai acontecer. Ao longo do ano, nossa organização vai avaliar os acontecimentos e decidir como reagir.

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“No Brasil, motores flex vão coexistir com elétricos e sistemas híbridos”

Na sua visão, qual é o futuro da indústria automotiva? Os carros vão ser mais elétricos. O Bio-Hybrid do Fiat Híbrido desenvolvido no Brasil é um dos caminhos para isso. Nosso investimento em pesquisa e engenharia no Brasil, com 4 000 engenheiros, tem o objetivo de servir não só ao mercado brasileiro e da América do Sul, mas também do resto do mundo. Os automóveis também terão mais autonomia. O carro tradicional que a gente conhece vai mudar muito em dez ou 25 anos. Eles serão os primeiros robôs de verdade com os quais vamos interagir. Teremos aplicações de inteligência artificial que vão substituir o manual do proprietário em papel. A pessoa vai falar com o carro e perguntar o que fazer quando acontece isso ou aquilo.

As recentes mudanças na política energética nos Estados Unidos, reduzindo incentivos para os veículos elétricos, são um risco para a Stellantis? A Stellantis tem produtos baseados em plataformas multienergia para suas marcas e diferentes tipos de tecnologia, capazes de atender às diversas necessidades dos consumidores. Estamos preparados para a transição energética, acompanhando o interesse de cada mercado por diferentes tipos de tecnologias de eletrificação. Nosso objetivo é sempre oferecer aos nossos clientes a liberdade de escolher o que eles desejam.

A produção tende a migrar para os países emergentes? A produção depende do mercado. Fala-se muito em quantos carros são produzidos, mas o que vale é saber quantos você vende. Por isso, o local de produção vai depender de onde os carros estarão sendo vendidos. Se houver mais venda de carros, vai haver mais produção no Brasil. Há uma maior regionalização do setor e o país é exemplo disso. As coisas estão indo muito bem por aqui.

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Nos Estados Unidos, por outro lado, as vendas caíram no ano passado, atraindo reclamações de custos e qualidade até mesmo dos revendedores de automóveis. O Antonio (Filosa, presidente para as Américas desde outubro de 2024) está fazendo um grande trabalho. Eles amam muito o Antonio, mandam mensagem o tempo todo, mostram-se preocupados com as tarifas, querem saber o que está acontecendo. O clima nos Estados Unidos agora é muito bom. E vamos aproveitar essa visita ao Brasil para mostrar ao resto do mundo que a Stellantis está indo bem. Não há tanto conhecimento sobre o que a gente faz por aqui. A América do Sul representa 5% do mercado mundial de veículos, mas para a Stellantis é mais de 15%.

Como enfrentar a concorrência dos chineses globalmente? A indústria automotiva sempre foi competitiva em escala global e, recentemente, marcas chinesas surgiram como fortes concorrentes, especialmente no mercado de veículos eletrificados. A Stellantis tem uma capacidade notável de se adaptar a cada mercado, oferecendo soluções inovadoras enquanto garante a qualidade de nossos produtos e a força da nossa rede de atendimento.

E em relação ao avanço dos carros chineses no Brasil? É uma oportunidade para aprender. A competição é sempre boa, porque nos obriga a reagir. Se for como no esporte, em que você enfrenta uma equipe boa, você tem mais satisfação na disputa. O importante é que as regras sejam as mesmas para todos. Além disso, por meio da joint venture entre a Stellantis e a Leapmotor (fabricante chinesa de veículos elétricos), confirmamos a chegada da marca e seus produtos aos principais mercados da América do Sul. O C10 será o primeiro produto da Leapmotor a ser lançado no Brasil em 2025. Seja com as nossas versões eletrificadas ou Bio-Hybrid, temos orgulho de levar uma gama de opções inovadoras aos clientes no Brasil.

A tecnologia flex é um diferencial brasileiro? Sim. Na América do Sul, particularmente no Brasil, aproveitamos uma matriz de propulsão diversificada, em que motores a combustão flex menores e mais eficientes coexistirão com motores elétricos e sistemas híbridos com a tecnologia Bio-Hybrid. Essa é uma solução inteligente e natural que se baseia em uma importante vantagem competitiva nacional: a grande capacidade de produção e distribuição de etanol do Brasil, que oferece baixo impacto ambiental.

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“O C10 será o primeiro produto da Leapmotor a ser lançado no Brasil em 2025”

Quando a Stellantis foi criada, unindo a Fiat Chrysler à PSA, falava-se que haveria uma redução no número de marcas ou de fábricas. Isso ainda está no horizonte? Estamos na quarta posição do setor no mundo (em volume de vendas), atrás de Toyota, Volkswagen e Hyundai Kia. Mas isso por enquanto. Então, precisamos trabalhar. Temos catorze marcas, ou quinze, se incluirmos a parceria com a Leapmotor, e uma grande oportunidade de fazer muitos produtos diferentes com elas. Agora que estivemos juntos nesses anos, vamos poder pensar quais são os melhores produtos e as melhores marcas.

E o que vai acontecer com o portfólio no Brasil? O desempenho de produtos no segmento de picapes com a marca RAM é realmente incrível. O mesmo está ocorrendo com a Jeep e a Abarth, uma marca esportiva. Para 2026, nos nossos cinquenta anos no Brasil, nossa equipe está preparando coisas muito incríveis também para a Fiat. Vocês vão ficar impressionados. Os produtos são tão lindos que vai ficar difícil para a concorrência.

Como a Stellantis lida com a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada? A qualificação da mão de ­obra é fundamental para manter a nossa competitividade em todos os mercados. Para alcançar isso, além de atrair talentos, o investimento contínuo em programas de aprimoramento é essencial para um desenvolvimento a longo prazo. O Brasil é um exemplo de destaque nesse sentido, reforçado ainda mais por nosso recente anúncio de criação de 1 900 vagas, incluindo 400 engenheiros para ingressar no novo centro de desenvolvimento em Betim, o maior da América Latina, o que reafirma nosso compromisso com a inovação e a engenharia local. Ao investir na qualificação da força de trabalho local, fortalecemos as comunidades em que atuamos, garantindo excelência e sustentabilidade na indústria automotiva global.

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A Exor tem investido em tecnologia para além do setor automobilístico. Existem planos para o Brasil? Além da Stellantis, a Exor atua no Brasil por meio de outras empresas. A Iveco (fabricante de veículos pesados e utilitários leves), por exemplo, está indo muito bem. O mesmo ocorre com a CNH (Case e New Holland), pois, se a agricultura está em um período muito bom, compram-se tratores bons. Também temos a Philips, na área de tecnologia medicinal, que vê no Brasil um mercado muito importante. Ou seja, a Exor entende que há muitas oportunidades no Brasil. Preferimos investir no país por meio das nossas empresas, mas não existe razão para excluir a possibilidade de, no futuro, fazermos investimentos diretamente no Brasil. No ano passado, fui a São Paulo e conheci casos interessantes: o Nubank, o sistema de pagamentos da Stone e o Quinto Andar. O Brasil tem muitas pessoas inovadoras e empreendedoras.

Publicado em VEJA, março de 2025, edição VEJA Negócios nº 12

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