Tanto os avanços tecnológicos na aviação quanto nos hospitais são indiscutíveis. Ambas as áreas têm se beneficiado com sistemas extremamente modernos e controlados. Porém, essa melhora só é observada na tecnologia. Vou explicar.
No passado, os aviões utilizavam-se de ferramentas precárias, mas disponibilizavam um serviço humano glamouroso aos clientes. Era viável fazer uma ponte aérea Rio–São Paulo desfrutando de bons vinhos, almoços e utensílios sofisticados. A aeromoça tinha uma apresentação elegante, bem vestida e muito educada. Era fácil encontrar meninas que sonhavam com essa profissão. Muita coisa mudou.
A origem dos hospitais remonta à Grécia Antiga devido à necessidade de se ter um lugar para atender os feridos de guerra. Mas o conceito de cuidar do outro só seria difundido em escala a partir de instituições como a Igreja Católica.
Além de hospitais, foram criados creches e asilos e, até hoje, existem muitos deles pelo mundo. Em sua concepção, esses projetos visavam atender quem precisava de acolhimento – físico, psíquico e até espiritual.
Há algumas semanas, acompanhamos um acontecimento revoltante: o de uma atriz sendo extremamente maltratada e desrespeitada em pleno voo de uma companhia aérea.
É o passado, quando tínhamos profissionais qualificados para resolver questões e imprevistos como esse, dando lugar a movimentos escandalosos vindo de todas as partes.
Aeronaves cada vez mais modernas, sistemas de última geração, inteligência artificial e companhia. O primor pelo atendimento ao público desapareceu e o necessário carinho e cuidado humano por parte dos atendentes foram embora juntos.
Ainda que se pague por passagens caríssimas, o cliente parece ter que torcer para não ter nenhum problema sério ao embarcar em uma aeronave.
Não muito diferente estão os hospitais. Lembro-me das antigas e simples estruturas hospitalares, mesmo nas grandes cidades. Trabalhávamos com pouca tecnologia, que só começou a melhorar no Brasil no final da década de 90.
Era o início de uma grande rede hospitalar difundindo no país a alta tecnologia como padrão, fazendo com que seus concorrentes seguissem o mesmo caminho. Mas, assim como nos aviões, algo com o passar do tempo desapareceu: a forma de cuidar.
É óbvio que não desejamos que ninguém seja maltratado em um voo. Mas imaginem em um hospital?
Hoje, o atendimento e o cuidado com o paciente estão longe de atingir a excelência na maior parte desses ambientes. Não vemos mais médicos e outros profissionais de saúde exalando paixão pelo que fazem e e se esforçando para ajudar os pacientes.
Nesse passado, aquela pessoa deitada no leito, bem como os familiares que a apoiavam, era prioridade absoluta. O ambiente era silencioso, de profundo respeito pelos enfermos. Ter o melhor tomógrafo ou a recepção mais moderna pouco importavam.
Tudo mudou muito, não só na rede pública como na privada. Os hospitais estão longe de atingir os conceitos pelos quais surgiram. Hoje, pessoas são leitos ou números, mal são conhecidas pelos seus nomes.
Apesar de ser médico, confesso que não gosto de ir a certos hospitais nos dias de hoje. O ambiente não é acolhedor. Vemos brigas de egos e valores não condizentes com o que deveria ser o propósito daquele lugar.
Somos recebidos por gente mal humorada, corredores barulhentos, profissionais de saúde com linguajar, comportamento e vestimentas não condizentes com aquele espaço. Um verdadeiro esquecimento do ser.
O desrespeito abrange até as UTIs. Luzes acesas à noite toda, conversas em tom alto, músicas ecoando dos celulares, total indelicadeza ao acordar o paciente para verificar a pressão ou medicá-lo.
A demora no atendimento chama a atenção, como se fosse apenas um capricho do paciente querer ou precisar ser cuidado. Os profissionais de saúde parecem não ter mais prazer ou tampouco paciência para estarem ali e cumprir ao menos o que é sua obrigação.
As fotos nas redes sociais e os papos nos bares depois dos plantões não refletem a realidade do que podemos acompanhar em alguns hospitais brasileiros.
Ao chamarmos a atenção para atitudes repulsivas, como no episódio da atriz no voo, somos criticados e repreendidos com caras e bocas. Algumas vezes até ofendidos. Mas o problema não se restringe ao interior do avião.
Pois é, o prazer de viajar e de se sentir acolhido e cuidado em um hospital deixou de ser óbvio e se tornou algo raro, mesmo que tenha custado caro.