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Trump anuncia hoje seu apocalipse tarifário; saiba o que pode acontecer

O presidente Donald Trump anuncia nesta quarta-feira, 2, um dos maiores atos de autossabotagem econômica jamais visto na história dos Estados Unidos. Trump está prestes a pular no abismo do protecionismo — e vai arrastar o resto do mundo consigo. Às 16h em Washington D.C. (15h de Brasília), na Casa Branca, ele pretende apresentar os detalhes do seu pacote de elevação de tarifas de importação. O mercado está chamando a medida de “tarifaço”, enquanto o próprio Trump se refere à data de hoje como “Dia da Libertação”. Dentro da sua visão dos negócios como uma atividade em que quando um ganha, o outro perde, o presidente americano acredita que seu país está sendo explorado pelo resto do mundo por exercer uma das tarifas médias de importação mais baixas dentre todos os países, cerca de 3%.

Em que, exatamente, vai consistir esse tarifaço ainda é uma incógnita. Como Trump vem falando em “tarifas recíprocas”, uma das possibilidades é que ele imponha taxas adicionais específicas para cada país, de forma a equiparar as que são praticadas, em média, pelo parceiro comercial. Em tese, portanto, as tarifas que são praticadas pelos Estados Unidos para produtos brasileiros, por exemplo, poderiam ser elevadas de 3% para 11%, que é o que o Brasil cobra em média sobre as importações americanas. Isso encareceria bastante os produtos brasileiros nos Estados Unidos, reduzindo a competitividade em relação a itens Made in USA ou de outros países menos afetados pelo tarifaço.

Ainda que seja esse o modelo de taxação que o governo americano decida adotar, é possível que o critério de reciprocidade não seja o mesmo para todos os países. Isso porque Trump e alguns de seus assessores têm dado ênfase em suas declarações a uma lista de países, os “dirty 15”  (os “15 sujos”, em inglês), que desfrutam de grandes superávits comerciais com os Estados Unidos — ou seja, vendem muito mais do que compram dos americanos. A lista é encabeçada pela China e chega até a Indonésia. O Brasil está de fora, pois costuma ter um déficit em seu comércio com os americanos. Mas isso não tem servido de alívio, pois Trump mencionou especificamente o Brasil mais de uma vez como um país que pratica tarifas significativamente mais altas do que os americanos.

Outra possibilidade é que os Estados Unidos passem a cobrar uma tarifa básica de 20% para as importações de todos os países, com o argumento de que isso permitiria ao governo arrecadar 6 trilhões de dólares por ano com a taxação dos produtos vindos de outros países. Trata-se de uma estimativa baseada na premissa, bastante duvidosa, de que as importações se manteriam nos mesmos níveis atuais mesmo com tarifas mais altas.

Essa é uma das principais contradições da política tarifária de Trump. Uma das suas justificativas para aumentar as tarifas é o argumento de que isso vai injetar mais dinheiro nos cofres do Estado e vai ajudar a reduzir o endividamento público ou permitir um amplo corte de impostos domésticos. Mas se os produtos vindos de outros países ficarem muito caros, deixarão de ser importados, e com isso a arrecadação também vai cair.

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Trump sabe disso, como fica evidente quando ele menciona a sua outra justificativa preferida para o apocalipse tarifário. Ele diz que, se os itens importados ficarem muito caros, as pessoas vão preferir comprar equivalentes produzidos nos Estados Unidos. O problema é que isso levaria a um aumento dos preços também dos produtos americanos, o que, por sua vez, obrigaria a população a reduzir o consumo, provocando uma desaceleração da economia e, consequentemente, a redução na arrecadação de impostos por parte do governo.

Além das tarifas recíprocas e da tarifa geral, outra possibilidade é a imposição de tarifas setoriais, ou seja, taxas de importação específicas para determinados produtos. Algumas delas já foram implantadas pelo governo americano, como a tarifa de 24% sobre aço e alumínio, que impacta diretamente as exportações brasileiras. Outras podem vir a ser anunciadas nesta quarta-feira, afetando, por exemplo, os carros importados. Aqui, mais uma vez, Trump fala como se o efeito fosse banal: se um veículo alemão ficar mais caro, o comprador americano vai poder comprar um modelo fabricado nos Estados Unidos. Mas não é tão simples. Cerca de 50% dos automóveis vendidos no país são importados. E mesmo os que são montados nos Estados Unidos contêm a maior parte de suas peças importadas, que também seriam sobretaxadas. Ou seja, de um jeito ou de outro, os carros vão ficar mais caros para os consumidores americanos.

Além de terem de lidar com uma inflação maior, os americanos também vão sofrer as consequências das medidas retaliatórias que estão sendo preparadas pelos países que serão afetados pelas novas tarifas de Trump. A China e o Canadá já impuseram tarifas direcionadas a produtos específicos importados dos Estados Unidos, como automóveis, alimentos e eletrodomésticos. A União Europeia promete fazer o mesmo. Como resultado, as exportações americanas também vão cair, afetando empresas, investimentos e empregos. México e Brasil, entre outros, estão mais cautelosos e aguardam uma oportunidade para negociar exceções, antes de partir para a última opção, que é a de também elevarem suas tarifas. No fim, todos sairão perdendo.

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Com base no que já foi anunciado pelo governo americano, a OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) revisou para baixo em 0,2% sua estimativa de crescimento da economia mundial em 2025 e elevou em 0,3% sua previsão de inflação para os países do G20, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo, que inclui o Brasil. Se Trump anunciar 10% em tarifas adicionais sobre as importações em geral, o PIB global deve cair 0,3% em três anos. Ou seja, o apocalipse tarifário de Trump não geraria recessão apenas nos Estados Unidos, mas também no mundo como um todo.

Os Estados Unidos já experimentaram um apocalipse tarifário antes. Em 1930, com o intuito de proteger as empresas e os agricultores americanos durante a maior crise econômica do século XX, o governo americano elevou as tarifas de importação para 20% ou mais. A medida derrubou o comércio do país com o resto do mundo e apenas prolongou os efeitos da Grande Recessão. Repetir o erro agora pode ter um impacto ainda maior porque a economia americana é muito mais conectada ao resto do mundo do que antes: as importações representam 14% do PIB americano, duas vezes mais do que em 1930.

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