O mundo da moda vira do avesso. Depois de quase trinta anos, Donatella Versace deixou a direção criativa da grife, fundada em 1978 por seu irmão Gianni Versace (1946-1997). Ela assumiu o cargo depois do assassinato do estilista italiano na porta da mansão onde vivia, em Miami, nos Estados Unidos. A despeito da desconfiança geral, Donatella manteve o legado dele vivo, misto de rock, sensualidade, cores vibrantes e marketing. Com isso, a grife com a logomarca da Medusa fez muita gente perder a cabeça, em modelos indeléveis. É difícil apagar da memória o vestido selva usado por Jennifer Lopez na premiação do Grammy, em 2000 — fez tanto sucesso, e tanta gente o cobiçou, que o Google tratou de desenvolver mais rapidamente o serviço de imagens para facilitar a busca pela peça. “Foi a maior honra da minha vida continuar o trabalho de Gianni”, disse Donatella, na despedida. Agora, caberá a ela o cargo de “embaixadora chefe da marca”, em torno de tapetes vermelhos e filantropia por meio da fundação que leva o nome da família.
Na troca das cadeiras, Dario Vitale, recém-saído da Miu Miu, assumiu a direção criativa da Versace. Ele terá missão difícil, a de manter o tom de ousadia e provocação, de mãos dadas com as celebridades que servem de plataforma de divulgação. Não é brincadeira ser como Donatella, mas Vitale é do ramo, e não foi escolhido à toa.

Ele trabalhou catorze anos na Miu Miu, costela extraída em 1993 da marca Miuccia Prada, de visual discretíssimo, sóbrio a não mais poder. Mas Vitale sabe ser camaleão, e tem os atalhos do cofre. O Grupo Prada, de onde ele veio, pretende investir 1,8 bilhão de dólares na compra da Versace, hoje dentro do pacote de negócios da Capri Holdings. A Prada, aliás, está interessada também em comprar a Jimmy Choo, outra etiqueta da Capri. Resumo da ópera: a Versace, muito em breve, fará parte de um imenso conglomerado, pronto para brigar com gigantes como a LVMH, fusão da Louis Vuitton com a Moët Hennessy. Disputará, portanto e definitivamente, a série A do luxo incessante.
Trata-se, portanto, do início de uma nova era, e não há aqui palavras ao vento. “É um movimento natural e de rejuvenescimento”, diz Silvia Scigliano, pesquisadora de tendências do Istituto Europeo di Design. Vitale, insista-se, é o nome certo, na hora certa. Sua passagem pela Miu Miu foi notável, culminando em um crescimento de 84% nas vendas durante o último trimestre sob sua gestão. É demonstração de poderosa capacidade para impulsionar negócios e gerar desejos. “É um talento raro, que respeita profundamente a essência e os valores da Versace e entende claramente nosso potencial de crescimento”, afirma Emmanuel Gintzburger, CEO da Versace.

A reviravolta, que para muitos pode ser traduzida apenas pela estética, caminha na passarela das cifras. Tal qual outras companhias no topo do topo da moda, a Versace também viu as vendas caírem — em 2024, definhou em pouco mais de 1 bilhão de dólares. Como, então, sair das cordas, no canto do ringue? Abraçar a chamada geração Z, de 20 e poucos anos, atrelada ao humor dos tempos atuais, de respeito ao ambiente e sustentabilidade. Vitale é desse grupo, navega com excelência entre os criadores capazes de conversar com a juventude. É trajetória de mudança, aliás, que atravessa o mercado. A Gucci acaba de anunciar Demna Gvasalia como seu novo diretor criativo, com a missão de reinventá-la por meio de sua celebrada visão que une cultura pop e o universo digital. Jonathan Anderson deixou a Loewe, grife espanhola que ele transformou em uma das mais quentes do momento, para, comenta-se, assumir o lugar de Maria Grazia Chiuri na Dior. Tem mais: Matthieu Blazy na Chanel; Sarah Burton na Givenchy; Alessandro Michele na Valentino. A roda não para de se movimentar. Na luta por um espaço nos armários, a lentidão é mortal. Mas há uma armadilha, e a Versace parece ter a receita para fugir dela: como inovar para crescer sem perder o DNA original? Uma resposta pode ser obtida com um comentário de Gianni Versace, que Donatella não abandonou e Vitale deve usar como mantra: “A responsabilidade de um designer é quebrar regras e barreiras. Sou um pouco como Marco Polo, andando por aí e misturando culturas”. Convém prestar atenção no que a Versace trará ao mundo nas próximas temporadas.
Publicado em VEJA de 21 de março de 2025, edição nº 2936