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Robert Pattinson exorciza de vez a saga Crepúsculo no ousado Mickey 17

Ao andar pela superfície de gelo de um planeta inóspito, um explorador espacial dos anos 2050 cai numa fenda sem saída e é obrigado a aguardar a morte lenta — até que criaturas alienígenas aparecem com a promessa de destroçá-lo com maior agilidade. A cena poderia ser uma agonia trágica, não fosse apenas mais um dia protocolar na vida de Mickey Barnes. No mundo da ficção científica Mickey 17, que acaba de chegar aos cinemas brasileiros, ele é um “descartável” — um ser humano reimprimido após a morte, como hoje se imprimem estatuetas 3D. Com memória preservada em uma espécie de HD externo, o descartável é um serviçal escravizado que pode morrer à vontade, pois é ressuscitado em seguida para voltar à labuta. Ao dar vida ao peculiar personagem-título do filme, o astro Robert Pattinson passa longe da apatia do vampiro Edward de Crepúsculo ou do timbre soturno do herói Batman. Com sotaque do interior dos Estados Unidos, uma visão de mundo ingênua e senso de humor autodepreciativo, Mickey é uma figura tão patética quanto aprazível — e prova viva (ou quase) da ampla versatilidade de Pattinson.

AFIADO - O diretor de Parasita (à dir.) no set do novo filme: alegoria política atual
AFIADO - O diretor de Parasita (à dir.) no set do novo filme: alegoria política atual./Warner Bros

Aos 38 anos, o ator inglês é hoje um dos principais nomes masculinos de Hollywood, reviravolta da qual muitos duvidariam há pouco menos de duas décadas. Em 2008, ele se tornou famoso como galã de Crepúsculo, mas nem o sucesso da franquia, que arrecadou mais de 3 bilhões de dólares mundialmente, o livrou de um estigma difícil de superar. O ridículo do personagem — um vampiro que brilhava à luz do Sol e exibia uma pálida canastrice em cena — fez de Pattinson uma piada instantânea. Ao mesmo tempo que era ridicularizado, Pattinson teve a privacidade obliterada pelo status de ídolo adolescente e pelo relacionamento com a colega Kristen Stewart, que se encerrou em 2013 após um escândalo de traição por parte dela.

A chance da guinada, contudo, não tardou a aparecer. Para escapar das multidões juvenis e do escrutínio público, Pattinson investiu em papéis pitorescos no cinema indie — e, com isso, colheu a respeitabilidade que lhe faltava. Em 2012, encantou David Cronenberg, mestre do horror corporal, que aproveitou seu talento para a frieza em Cosmópolis. Dois anos depois, foi convidado pelo diretor a retornar em Mapas para as Estrelas, no qual não deixou a peteca cair frente à fera Julianne Moore. Daí para a frente, se firmou como menino dos olhos dos autores de Hollywood.

GUINADA - O astro inglês (à dir.) e Dafoe em 'O Farol': tipo pitoresco para rebater má fama em 'Crepúsculo'
GUINADA – O astro inglês (à dir.) e Dafoe em ‘O Farol’: tipo pitoresco para rebater má fama em ‘Crepúsculo’a24 films/.
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Sob a direção de Robert Eggers, extraiu sua atuação mais visceral até então em O Farol (2019), no qual enfrenta Willem Dafoe numa série de jogos psicológicos. Em outubro de 2020, quando alguns cinemas tentaram retomar operações com medidas de segurança contra a covid-19, era o seu rosto que estampava os cartazes da maior esperança dos exibidores: Tenet, de Christopher Nolan. A pandemia impediu que o filme atingisse seu potencial nas bilheterias, mas, dois anos depois, Pattinson se reapresentou como o novo Batman, sob a direção de Matt Reeves, em um filme que restaurou o prestígio do herói após o fracasso da versão de Ben Affleck e rendeu mais de 770 milhões de dólares. A mudança de paradigma é sentida pelo ator: “Agora tenho um monte de fãs homens, o que é novo para mim”, brincou em entrevista à Variety.

Tudo isso o levou até o sul-coreano Bong Joon-ho, que procurava o ator certo para estrelar seu novo filme em inglês — o primeiro desde o oscarizado Parasita (2019). O perfil exigia timing cômico, pendor para o grotesco, inteligência e versatilidade para viver mais de um personagem. Na trama, Mickey é utilizado como cobaia para assegurar que o planeta colonizado possa comportar a vida humana. Mas, após uma falha de comunicação, é reimpresso sem morrer e se torna um “múltiplo”, categoria indesejada pelo tirano Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), que comanda a expedição espacial. Juntos, o bobo Mickey 17 e o sanguinário Mickey 18 têm de sobreviver e combater o líder autoritário.

HERÓI GLOBAL - No papel de Batman: “Agora tenho um monte de fãs homens, o que é novo para mim”
HERÓI GLOBAL – No papel de Batman: “Agora tenho um monte de fãs homens, o que é novo para mim”./Warner Bros
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Sempre político, Bong se aproveitou da carta branca recebida após Parasita para filmar uma ficção científica grandiosa, madura e afiada, que dispensa a sutileza em suas críticas a Donald Trump, à precarização do trabalho, ao racismo e a poderes teocráticos. Na sátira ácida, a resposta para o terror é o modo como Mickey sai de si para se enxergar em sua cópia, o que acaba tornando o protagonista mais empático, perceptivo e crítico à repressão ao seu redor. Uma ousadia em dose dupla da qual Pattinson sai vivíssimo, e maior, como ator.

Publicado em VEJA de 7 de março de 2025, edição nº 2934

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