A Petrobras terminou o quarto trimestre de 2024 com prejuízo líquido de 17 bilhões de reais, revertendo o lucro de 31 bilhões de reais apresentado um ano antes, e acendeu novamente um alerta no mercado: será fruto da nova política de preços dos combustíveis? Para Jean Paul Prates, ex-presidente da estatal, não. Segundo ele, o resultado é uma combinação de fatores, como desvalorização cambial e queda na produção, mas que poderiam ser mitigadas pela gestão de sua sucessora, Magda Chambriard.
Prates ainda dá detalhes inéditos sobre o processo de sua queda à frente da companhia, sugere fritura, lamenta crises “que continuam sendo fabricadas diretamente do núcleo duro do governo Lula” e os arrependimentos que colecionou durante sua gestão.
“Ingenuamente, joguei um jogo visando o meu desgaste”, diz.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Prates à VEJA.
A Petrobras recentemente anunciou que teve prejuízo de 17 bilhões de reais no último trimestre de 2024. Qual a avaliação que o senhor faz da gestão da presidente Magda Chambriard? Me considero injustiçado e isso não tem a ver com ela. Magda é uma profissional capaz. Torço para que ela consiga fazer uma boa gestão, principalmente onde eu falhei, que é conciliar interesses de pessoas que querem mandar na Petrobras e que são capazes de fazer com ela o que fizeram comigo.
O prejuízo da Petrobras é fruto da política de preços, como foi na gestão da presidente Dilma Rousseff, quando a estatal foi usada para controlar a inflação? A política de preços é alvo fácil mas requer análise cuidadosa, pois é pouco provável que a companhia esteja vendendo com prejuízo. A Petrobras tem o direito e o seu acionista controlador tem o dever de estabelecer uma estratégia comercial que considere o fato de suas refinarias terem escala, eficiência e estarem bem localizadas para suprir os mercados regionais brasileiros. Claro que a empresa não pode, sozinha, ultrapassar os limites que coloquem sua rentabilidade em risco. Subsidiar combustível é ação para o governo, não para uma empresa de capital aberto.
Se não a política de preços, qual o motivo para o prejuízo? A produção caiu. E o impacto do dólar foi considerável. A questão é que a Petrobras tem instrumentos para mitigar esse efeito, basta fazer um hedge cambial. A quebra de confiança é que está deixando os investidores irritados: a gestão parece querer acelerar pagamentos para mostrar ao presidente [Lula] que “investiu mais”. Com isso, explodiram o capex para atender à “exigência” fajuta de investir até o talo. Como não conseguiram, até porque é impossível, resolveram artificialmente aparentar mais investimento, com o que, na verdade, não passa de uma antecipação de pagamentos programados.
No passado, focar em refinarias provou-se um investimento equivocado. Com Lula, a estatal voltou a anunciar investimentos em refino. É bom negócio? Atuar como uma petroleira texana, apenas na bacia de Campos e Santos e no parque de refino do Sudeste, seria um erro estratégico. A Petrobras não pode se desconectar completamente da transição energética do refino. Essas refinarias facilmente se convertem também em plantas de processamento de óleo vegetal para biocombustíveis. A Petrobras não tem futuro sem transição energética e sem horizontes de operação.
A exploração da Margem Equatorial também está envolvida em polêmicas. Como o senhor avalia essa questão e a posição do Ibama, contrário ao projeto? A Margem Equatorial faz parte do horizonte exploratório da Petrobras não é de hoje. É uma das regiões potencialmente mais valorizadas do Brasil. Mas é um dilema: explorar aquela região e se manter entre os dez principais produtores de petróleo do mundo é correto? É uma decisão de Estado. Ninguém, de Juscelino a Médici, de Getúlio a Lula, disse que perseguir a autossuficiência em Petróleo era menos importante. Todos continuaram nessa luta. E depois de 70 anos nós chegamos lá. Vamos querer abrir mão disso ou não?
Mas o impacto ambiental não seria grande? É o Ibama quem tem que dizer. A Petrobras é uma empresa que tem capital e condição de cumprir com o que quer que o Ministério do Meio Ambiente exija para fazer essa operação lá de forma responsável.
O fim da Política de Paridade Internacional foi muito criticado na sua gestão. Há controle de preços? A minha maior contribuição foi ter conseguido implementar uma nova estratégia comercial para os produtos da Petrobras que não ofende a rentabilidade e a lucratividade da empresa. A promessa era abrasileirar os preços, mas isso nunca significou se desgarrar completamente do preço internacional.
O senhor foi demitido da Petrobras após uma discussão sobre distribuição de dividendos. Teve, naquele momento, uma divergência com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Foi ele que advogou pela demissão do senhor? Eu sublimei essa questão. Não falei mais nisso. As pessoas estranham eu ter continuado no PT. Na política, temos que estar preparados para tudo. Fiz um embate que acreditei ser correto. O ministro tinha uma posição diferente da minha em relação a várias coisas. As divergências foram turbinadas por interesses, coisas que ele pretendia e eu considerava que a Petrobras não deveria participar. Além disso, havia o hábito dele querer anunciar coisas da Petrobras como se ela fosse subordinada ao Ministério, quando na verdade ela é vinculada ao Ministério, mas é uma empresa pública.
O ministro Silveira atropelava a sua gestão? Um pouco, sim. Eu tive que explicar várias vezes que ele não poderia fazer anúncios sem eu saber. Deveríamos trabalhar juntos. Eu sempre tive boa fé de ir ao Alexandre [Silveira] comunicar os próximos passos da Petrobras. Imediatamente, uma ou outra coisa dessas vazava para a imprensa ou era declarada pelo ministro. Teve uma vez que ele anunciou uma redução de preço nos combustíveis que eu tive que recuar.
Por que o senhor teve problemas com o ministro? Tem gente que tem dificuldade de entender que alguém, quando se destaca, destaca todo o time do presidente Lula. Tanto é que agora todos os ministros têm medo de se destacar. Todos os grandes nomes estão completamente apagados por essa ideia de que quem aparece imediatamente vira objeto de maledicência, de boatos de que vai ser demitido ou que vai estar desagradando o presidente. E aí dentro dessa história começou-se a criar falsas crises.
Qual foi o momento mais grave da sua gestão? A crise dos dividendos foi a gota d’água. Nós apresentamos o melhor resultado da história da empresa e, ao invés de a Casa Civil e o Ministério de Minas e Energia darem isso como uma coisa positiva, levaram o presidente a acreditar que o resultado foi porque nós não investimos o suficiente.
Mas efetivamente a Petrobras, naquele momento, não tinha chegado a 100% do investimento previsto para o período, não? Nenhuma empresa faz isso. Todo mundo faz a previsão de investimento com uma margem de erro para baixo porque você pode ter sobressaltos, então você vai sempre executar entre 70% e 90% do previsto. E nós fizemos tudo que era possível. A política de preço era outra sensibilidade. Nós tivemos lucro e baixamos o preço dos combustíveis. Não tinha mais o que fazer: era distribuir dividendo mesmo.
E qual foi a proposta que o senhor enviou ao Planalto? Pela lei das S.A., quando apurado o lucro, o dividendo é do acionista. Propus dividir meio a meio: metade iria para uma reserva, que ainda é de dividendo, porque pode ser que nos próximos trimestres eu não tivesse o suficiente para distribuir aos acionistas, metade distribuição no ato para quem acreditou na gente. Era o justo. A maior parte disso ainda iria voltar ao governo.
Qual foi a postura do presidente Lula no meio da briga entre o senhor e os ministros Silveira e Rui Costa? O presidente resolveu adiar a decisão por duas semanas. Nesse meio tempo, tivemos uma reunião do Conselho para comunicar a decisão. Estava sete votos a três pela proposta do governo e eu, como presidente, seria o último a votar. Se eu votasse contra a minha proposta, que era de dividir meio a meio, a discussão seria arquivada. Como não ia fazer diferença, eu me abstive. No mesmo minuto, o Planalto me ligou dizendo que eu tinha traído o Lula. Eu expliquei ao presidente e ficou na boa.
O que aconteceu para a discussão se alvoroçar novamente? Ao longo das semanas seguintes, alguns continuaram vociferando essa tese. Foram meses de surra. Uma verdadeira hiperatividade de vazamentos falsos ao presidente. Me provocavam. Eu não era o criador do conflito, eu estava administrando a empresa e defendendo a gestão que eu acreditava ser tecnicamente correta.
O senhor sabia que ia cair? Não, nunca imaginei. Em dezembro de 2023, o presidente me disse que eu estava fazendo meu papel. Eu era incentivado a trazer contrapontos. Em maio, eu caí. Ingenuamente, eu não vi que esse era um jogo visando o meu desgaste. Esse expediente ainda está sendo usado contra outros ministros.
Quais ministros? O ministro Fernando Haddad, principalmente. Mas outros também, como o ministro Wellington Dias. Quem teve a ideia genial, diante da percepção de uma inflação de alimentos, em vez de convocar uma reunião privada de ministros, convocar uma reunião pública para dizer que iria tomar providências? Desde quando é positivo ver o presidente admoestando publicamente um ministro que ele indicou? Isso não faz sentido nenhum. Tem alguma coisa muito errada.
De onde partem essas intrigas? Partem da Casa Civil e do Palácio do Planalto. Isso é altamente pernicioso. O presidente tem que mudar isso já. Ele não pode ser pautado por boatos e notinhas obscuras que já chegam a ele filtradas. Você não pode ser fritado perante o presidente sem ter direito a defesa. Tenho um dossiê com tudo o que foi plantado na mídia contra mim.
Quais são os interesses da Casa Civil e do Planalto nessas crises? Não sei. Todo mundo diz que o Lula é candidato, então não deveria haver disputa por sua sucessão neste momento. O que pode existir é disputa por reformas ministeriais, participações na campanha de 2026 ou, ainda lá na frente, gente querendo se postular como líder da esquerda.
O senhor guarda mágoa do presidente Lula? Ele sempre foi muito justo, mas no meu caso as intrigas passaram do limite. A minha agenda era boicotada pela Casa Civil. Guardo zero ressentimento. Perdi a batalha, mas continuo na guerra da esquerda brasileira.
O senhor diz que não tem mágoa, mas fez um dossiê sobre o episódio. Isso não é irônico? Tenho uma coleção dos recortes de notícias para lembrar exatamente a cronologia daquilo e como foi aquele processo. Eu não vi acontecer. A rã, quando é levada para a panela, não sente. Ela não pula. Por isso se chama fritura. Mas não guardo mágoas. Continuo ao lado do presidente Lula.
Qual é a avaliação que o senhor faz do governo até aqui? Há uma tendência no segundo escalão de sair acotovelando os outros para ver quem vai sair por cima, tipo batalha de caranguejo. Eu acho isso errado. É muito ruim também deixar chegar ao presidente Lula a responsabilidade sobre tudo o que acontece. Parece que todo problema eles deixam embolar antes de resolver. O PT tem que dar destaque aos seus componentes.
O senhor se arrepende de algo na sua passagem pela presidência da Petrobras? Nunca pensei nisso. Talvez tenha menosprezado a necessidade de entender melhor alguns interesses que estavam por trás da postura dos ministros da Casa Civil e Minas e Energia. Isso me permitiria explicar melhor minhas ideias e não contestar puramente. Em alguns momentos, o pavio foi curto. Tanto de um lado quanto do outro. Todos os dias tinha alguma importunação.