myspace tracker O clichê de Vale Tudo que demoniza os chefões do mundo corporativo – My Blog

O clichê de Vale Tudo que demoniza os chefões do mundo corporativo

No inventário fascinante das maldades em Vale Tudo, muito se fala sobre as duas grandes víboras femininas da trama escrita originalmente por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988. Odete Roitman e Maria de Fátima são quase divas pop, é fato, mas não se pode esquecer de um malvadão fundamental: Marco Aurélio, o empresário inescrupuloso e insensível vivido por Reginaldo Faria na versão antiga do folhetim da Globo. Coube a ele, afinal, protagonizar a cena do capítulo final que sintetizava a mensagem sobre a ética nacional consagrada em Vale Tudo — o momento em que o corrupto homem de negócios fugia impune e mandava uma banana para o país.

Na nova versão de Vale Tudo, Marco Aurélio deu as caras pela primeira vez no segundo capítulo, exibido na terça-feira 1º de abril. Agora na pele de um Alexandre Nero de olhar fulminante, sua nova encarnação já deu indícios de uma curiosa atualização do personagem promovida pela novela: ele agora se move num mundo corporativo contemporâneo, no qual executivos transitam pelo escritório portando ternos modernos e smartphones caros — embora a trama se passe no Rio, dá quase para sentir o cheirinho do território habitado pelos chamados “faria-limers”, os profissionais que trabalham na próspera região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, onde poucos quarteirões concentram uma infinidade de conglomerados empresariais.

Logo na primeira aparição em cena, outra referência óbvia: a mise-en-scène de sua chegada de helicóptero à sede da empresa de mentirinha da trama bebeu evidentemente do clima de Succession, a série antológica da HBO sobre as disputas de poder de um magnata da mídia e seus filhos.

Vale Tudo, quem diria, adentrou assim um ecossistema humano instigante. Mas o próprio desenrolar da história, se prosseguir conforme a primeira novela, deve desembocar numa velha ideia clichê: a de que líderes empresariais são todos homens intrinsecamente maus que só pensam em poder e dinheiro, cobram “eficiência” como um mantra vazio — e revelam-se insensíveis para todo o resto. Sintomática disso foi a cena (muito divertida, aliás) em que as secretárias sorriem e cumprimentam Marco Aurélio na entrada do escritório; ele vira solenemente a cara e determina a seu aspone que comunique o pessoal que não gosta de ser cumprimentado pelos subalternos.

Como toda generalização, claro, a vilanização corporativa é injusta e propaga uma visão simplista dessa seara importante do capitalismo. Mas que isso rende ótimas maldades na novela, não resta a mínima dúvida. Se há um profissional eficiente nesse sentido, é o tal Marco Aurélio.

Publicidade

About admin