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Novos modelos de ONGs potencializam o investimento social

No início dos anos 90, participei da edição da publicação do Prêmio Bem Eficiente, de Stephen Kanitz, mestre em administração de empresas pela Harvard Business School e criador do tradicional ranking “Melhores e Maiores”, promovido pela revista Exame. Na época, a intenção do prêmio era reconhecer o trabalho dos cerca de 30 mil dirigentes e voluntários sociais, mostrando o tanto que faziam pelo Brasil, com eficiência e cada vez menos recursos.

De lá para cá, as organizações não governamentais ganharam importância e ainda mais visibilidade. Dados do último censo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) mostram que investidores associados à entidade direcionaram, em 2022, R$ 4,8 bilhões para ações filantrópicas de impacto social. Um crescimento de cerca de 20% em relação ao período pré-pandemia. No ano da pandemia, o volume de investimento social privado foi ainda mais alto. Chegou a R$ 6,1 bilhões e fez a diferença em diversas áreas, de apoio à vacinação à alimentação.

Em 2022, o Brasil chegou a figurar no top 20 do World Giving Index, o principal ranking mundial de doações para organizações sociais. Infelizmente, no ano seguinte, despencou para a 89ª colocação e, em 2024, ficou em 86º lugar, atrás de países como Quênia, Bolívia e Peru.

“Chegamos a mais um ano encarando de frente a urgência dos desafios e a complexidade das soluções. A sociedade está frag­mentada, e muitos se sentem distantes da possibilidade de contribuir para a mudança”, analisou Paula Fabiani, CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), na Introdução do relatório Perspectivas para a filantropia no Brasil 2025, lançado em fevereiro. “É justamente em momentos como esses que a filantropia se mostra ainda mais necessária, sendo um espaço de resistência, inovação e, acima de tudo, de esperança em ação”, frisou.

Inovação tem sido mesmo uma marca do terceiro setor brasileiro que, nos últimos anos, tem contado também com o talento e a criatividade de artistas e intelectuais como o documentarista e cineasta Walter Salles, fundador do Instituto Ibirapitanga, uma ONG dedicada a defesa de liberdades e ao aprofundamento da democracia no Brasil, e o DJ Alok, fundador do Instituto Alok junto com a sua mulher, a médica Romana Novais.

PARCERIA E COCRIAÇÃO

Ambas as organizações investem na parceria com projetos que já existem, num movimento diferente ao que se via nos anos 90, em que a intenção era criar os seus próprios programas do zero –  desperdiçando, muitas vezes, tempo e dinheiro.

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“O instituto nasceu do desejo de organizar o investimento social”, explica o diretor executivo da organização, Geraldinho Vieira (Devam Bhaskar), em entrevista à coluna. Segundo ele, no início, o instituto não se dividiu em áreas de atuação, como é tradicional nesse tipo de organização. “Não definimos o instituto como sendo de educação, de saúde, de mulher, de negritude ou de meio ambiente”, diz ele. “A causa é a vida plena, sustentável, digna”, afirma.

Nos últimos quatro anos, o Instituto Alok apoiou 103 projetos no Brasil, oito na Índia e três na África, beneficiando 1,6 milhão de pessoas no Brasil e 115 mil pessoas na África e na Índia. A atuação  se organiza em grandes blocos: desenvolvimento humano, em que apoia as áreas de educação, cultura, assistência social, empreendedorismo, gastronomia social, direitos de crianças e adolescente e empoderamento da mulher e das populações negras e indígenas; natureza e comunidades, que engloba iniciativas de reflorestamento, restauração e proteção da natureza, considerando o protagonismo e o empoderamento das comunidades locais; e povos originários, projetos de divulgação da diversidade étnica e cultural dos povos originários do Brasil, apoiando sua maior participação nas várias dimensões da agenda pública e também “ações que fortalecem o empreendedorismo e o bem viver nas aldeias”.

O trabalho do artista e do filantropo, muitas vezes, se funde, numa combinação que potencializa os resultados. Povos originários, por exemplo, nasceu como uma grande área com a gravação do álbum O Futuro é Ancestral, fruto de mais de 500 horas de imersão colaborativa em estúdio.

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 “O Alok se via atendendo ao desejo dos indígenas de ser ele uma plataforma, uma ampliação das vozes indígenas, da cultura indígena, da beleza das suas músicas e de suas mensagens”, explica Geraldinho Vieira.

A música Pedju Kunumigwe, do álbum O Futuro É Ancestral, recebeu indicação ao Grammy Latino na categorial Melhor Performance de Música Latina. Um fato histórico para os povos indígenas brasileiros. Ao todo, o instituto também já investiu em mais de 30 projetos indígenas, nas áreas de cultura, empreendedorismo, meio ambiente, reflorestamento, segurança alimentar, saúde, direitos, educação e ações emergenciais. “A própria relação com os povos indígenas nos levou a um desejo maior de contribuir na área de preservação da natureza”, diz Geraldinho. “Não dá para preservar a natureza sem pensar nos ribeirinhos, nos indígenas.”

O modelo é sempre o de apoio a projetos que já existem, com espaço para cocriação. Aos poucos, os impactos vão aparecendo. Em 2023, os adolescentes inundaram as redes sociais do Alok com agradecimentos. “Se não fosse por ele, os jovens diziam que não saberiam fazer a redação sobre os indígenas porque, antes, não se preocupavam com essa questão”, conta o diretor executivo do instituto, ao apontar um dos muitos impactos sociais imensuráveis da organização.

Neste ano, deve sair a Coleção Som Nativo, que vai apresentar um acervo da música de sete etnias dos povos originários do Brasil, valorizando sua diversidade de ritmos e mensagens. A coleção é uma contribuição do Instituto Alok à Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), em cooperação com a Unesco. As letras estarão disponíveis nas línguas originais, com traduções para português, espanhol e inglês.

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USINA DE ARTICULAÇÕES

“O instituto vai, aos poucos, encontrando seu lugar no mundo, tentando trazer o máximo de encontros”, afirma Geraldinho. A palavra-chave é parceria. Parceria com ONGs que trabalham na ponta, com institutos, fundações e organismos internacionais, com projetos e mesmo com marcas que estão ou não ao redor do show business do Alok. “Somos uma usina de articulação”, resume Geraldinho Vieira.

De certa forma, o Instituto Alok sintetiza uma nova forma de agir das ONGs, em que a sinergia entre organizações e parceiros potencializa as ações e resultados. Uma maneira de atuar que também pode ser vista em articulações como a Agenda 227, movimento apartidário que reúne mais de 400 organizações da sociedade civil em torno do objetivo de colocar crianças e adolescentes no centro da agenda, ou ainda no recém-criado Grupo de Práticas e Aprendizagens, reunião de 17 organizações no Brasil que receberam recursos da filantropa americana MacKenzie Scott, para sistematização e compartilhamento de aprendizados. A união faz de fato a força e, sem dúvida, pode ampliar a reflexão, o alcance e o  impacto do investimento social.

* Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos.

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