Em um êxodo que começou com especial força a partir da pandemia, em 2020, diversas companhias multinacionais continuaram fazendo as malas, já sob o governo do novo presidente, Javier Milei, e deixando a Argentina. Em boa parte dos casos, as operações no país continuam, mas assumidas por empresas locais.
Na semana passada, foi a espanhola Telefónica que confirmou a venda de seus negócios no país para a Telecom Argentina. A negociação aconteceu poucos dias depois de a alemã Mercedes-Benz também anunciar a conclusão da venda de sua fábrica em Virrey del Pino, na região metropolitana de Buenos Aires, onde se instalou em 1951 e se tornou a primeira planta da companhia fora da Alemanha.
Desde abril do ano passado, também já se foram o banco britânico HSBC, a gigante americana do petróleo ExxonMobil e a também americana Procter&Gamble, que vendeu os ativos locais e licenciou a produção e a venda de suas tradicionais marcas, como Gillette, Pantene e Pampers, para a Newsan, fabricante e rede varejista argentina de eletroeletrônicos. O ultraliberal Javier Milei foi eleito em novembro de 2023 e assumiu a presidência do país em 10 de dezembro do mesmo ano.
Em comum entre as desertoras, há alguns fatos: muitas já planejavam o fim das operações há algum tempo, e todas foram compradas por alguma companhia local. A Telefónica, por exemplo, que já se desfez de ativos também na Colômbia, El Salvador e Guatemala, vem desde 2019 trabalhando para reduzir a sua participação na América Latina, e fechou por bem avaliados 1,24 bilhões de dólares a venda na semana passada para a Telecom Argentina, uma companhia do grupo de mídia Clarín e do fundo Fintech.
No caso da Mercedes-Benz, que também vendeu uma de suas fábricas no Brasil em 2021 para a chinesa de carros elétricos BWM, a produção e venda dos carros e vans da marca foram assumidas em fevereiro pela rede nacional de concessionárias Prestige Auto Open Cars – que prometeu manter 0s 1700 empregos da operação.
No caso do HSBC, todas as operações locais do banco foram repassadas em abril do ano passado para o Grupo Financiero Galicia, um dos maiores conglomerados financeiros da Argentina. Em julho foi a vez da P&G concluir a transação com a Newsan e, em dezembro, a ExxonMobil confirmou a venda de seus campos de exploração na região de Vaca Muerta, uma reserva de petróleo e gás de xisto descoberta na Patagônia, para a petroleira nacional Pluspetrol.
O fato de as companhias nacionais terem maior familiaridade e resiliência para sobreviver aos já velho conhecidos sobe-e-desces da economia argentina está entre as razões dadas por analistas para a tendência, de acordo com uma reportagem feita pelo jornal El País em Buenos Aires.
A saída das multinacionais, por sua vez, é um fenômeno que já vem de alguns bons anos, desde pelo menos as decepções com o governo do empresário Mauricio Macri, que presidiu a Argentina de 2015 a 2019 e deixou o mandato com uma moratória à dívida que tinha com o Fundo Monetário Internacional. A pandemia, o sucessor peronista Alberto Fernández e a feroz crise inflacionária que deixou ajudaram pouco em retê-las. Sob Milei, o êxodo parece continuar.
Os problemas domésticos se juntam a uma tendência mundial de as grandes indústrias internacionais buscarem trazer de volta para perto de si a sua produção, movimento que ganhou força principalmente depois das crises geopolíticas e de suprimento nas indústrias globais com a pandemia e a guerra da Ucrânia. Zara, a americana de brinquedos Hasbro, o Walmart (que também abandonou o Brasil em 2019) e a Nike (que se desfez das atividades também no Brasil, Chile e o Uruguai) são alguns exemplos de outras que partiram da Argentina desde pelo menos 2019. Brasileiras como a meio chilena Latam, que encerrou as operações no vizinho do Cone Sul em 2020, e o Itaú, que foi embora de lá em 2023, também estão na lista.