A greve dos auditores fiscais da Receita Federal, que já dura mais de 100 dias, ameaça transformar a Páscoa em um período de desabastecimento e preços mais altos. Com o bloqueio na liberação de mercadorias importadas nos portos e aeroportos, itens essenciais para a fabricação dos tradicionais ovos de chocolate estão sofrendo atrasos significativos para chegar ao Brasil. A dependência de insumos vindos outros de países pode resultar na falta de produtos nas prateleiras ou no encarecimento dos ovos de Páscoa, deixando a data celebrativa mais salgada.
Segundo Gustavo Valente, especialista em comércio exterior e redução de custos tributários da Sinergy Advisors, o impacto da greve na Páscoa se deve à complexidade logística envolvida na produção dos chocolates. “Muitos dos ingredientes essenciais, como o cacau e a manteiga de cacau, vêm de países africanos, e o Brasil depende das liberações aduaneiras para que esses insumos cheguem às fábricas a tempo de serem transformados em produtos para as prateleiras”, explica Valente. Com o atraso nas liberações, as empresas de chocolate enfrentam custos adicionais com armazenagem e demurrage, multas cobradas pelo atraso na devolução de contêineres. “Esses custos inevitavelmente serão repassados ao consumidor final”, diz.
O impacto não se limita apenas aos insumos. “As embalagens dos ovos de Páscoa, que muitas vezes vêm da China, também estão presas nos portos. E com a alta demanda sazonal, qualquer atraso na liberação pode comprometer a oferta”, afirma. Ele alerta que a indústria de brinquedos, responsável pelos brindes dentro dos ovos de Páscoa, enfrenta situação semelhante, já que a maioria desses itens é importada da Ásia.
A greve afeta não só a indústria, mas também o fluxo de caixa dos importadores, que, sem a liberação dos produtos, precisam recorrer a medidas judiciais, como mandados de segurança, para evitar prejuízos ainda maiores. “Isso gera mais custos para as empresas, que já estão operando em um ambiente econômico desafiador, com margens de lucro reduzidas”, pontua. O cenário, segundo ele, pode levar a um Páscoa com menos opções e preços mais salgados.
Entenda a greve
Iniciada em 26 de novembro de 2024, a greve dos auditores fiscais da Receita Federal tem como objetivo pressionar o governo a atender algumas reivindicações da categoria, entre elas está o reajuste salarial, que permanece congelado desde 2016, com exceção de um aumento de 9% concedido em 2023.
De acordo com o Sindifisco Nacional, que representa os auditores fiscais, a paralisação já causou sérios entraves ao funcionamento da Receita Federal. Mais de 75 mil remessas expressas ficaram retidas nos terminais alfandegários, enquanto cerca de 500 auditores entregaram suas funções e cargos em comissão. Como parte da estratégia para aumentar a pressão sobre o governo, em fevereiro de 2025, a categoria adotou a medida chamada “Desembaraço Zero”, suspendendo por 15 dias a liberação de mercadorias nos postos alfandegários, o que acentuou ainda mais os problemas de logística e importação no país.
O impasse entre a categoria e o governo permanece sem solução, enquanto as negociações avançam lentamente. O Ministério da Fazenda argumenta que a concessão de aumentos salariais para os auditores fiscais pode desencadear um efeito cascata, incentivando outras categorias do funcionalismo público a também pleitearem reajustes, algo que o governo tem evitado devido às restrições fiscais. Contudo, o prolongamento da greve tem causado um impacto significativo na arrecadação federal e no funcionamento de diversos setores econômicos, como o comércio e a indústria.