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É preciso pensar em cuidado integral para o autismo

O debate em torno do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem conquistado cada vez mais espaço, extrapolando os ambientes técnicos e acadêmicos e ganhando relevância nas mídias, nos espaços políticos e nas redes sociais. Parte expressiva dessa atenção decorre dos desafios enfrentados pelos sistemas de saúde para assegurar a sustentabilidade e a integralidade do cuidado às pessoas autistas e suas famílias. Trata-se de uma questão global que impacta tanto o sistema público quanto o suplementar, revelando insuficiência de recursos e fragilidade nas redes assistenciais.

Embora o TEA apresente denominadores comuns, cada indivíduo dentro do espectro é singular em seus desafios e potencialidades, com necessidades que dependem tanto das particularidades da sua condição quanto da capacidade de resposta das comunidades em que estão inseridos.

Apesar dos avanços regulatórios e da construção de políticas públicas que reconhecem a neurodiversidade, diversos fatores ainda comprometem uma assistência efetiva. A baixa disponibilidade e concentração desigual de profissionais com capacitação nesta temática são fatores que comprometem o acesso, mas não apenas.

Para assegurar o acesso e a integralidade em saúde às pessoas com TEA, é preciso reconhecer que a Atenção Especializada não pode ser o único espaço para atendimento das necessidades específicas desse público. A fragilidade na articulação das redes de atenção e, sobretudo, a predominância de modelos de cuidado fragmentados e centrados exclusivamente em atendimentos individuais são fatores dificultam a construção de trajetórias terapêuticas eficazes.

Para otimizar recursos e garantir uma resposta mais resolutiva, é essencial qualificar e articular os diferentes pontos das redes de
atenção. Uma vez que o desenvolvimento da autonomia passa necessariamente pela capacidade das pessoas no espectro e suas famílias encontrarem redes de suporte dentro das próprias comunidades, estratégias como atendimentos em grupo e intervenções realizadas nos ambientes naturais dos indivíduos têm ganhado relevância.

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Neste contexto, a incorporação de tecnologias em saúde pode trazer respostas que enfrentem tanto a escassez de recursos quanto a necessidade de fortalecer as redes de atenção. A telessaúde, em particular, tem demonstrado crescente relevância no cuidado às pessoas com TEA.

Do ponto de vista técnico, há evidências que indicam que métodos baseados em telessaúde apresentaram precisão diagnóstica entre 80% e 91% quando comparados à modalidade presencial, além de altos índices de satisfação entre cuidadores, pacientes e profissionais. Também já foram descritos resultados positivos em relação à eficácia de intervenções multiprofissionais realizadas de forma remota, sobretudo em contextos com menor disponibilidade de especialistas.

A integração do cuidado é um dos principais benefícios da telessaúde, pois permite a comunicação entre profissionais de diferentes pontos da rede, promovendo planos terapêuticos coordenados. Ela permite ainda, ampliar a capacidade de resposta das redes de atenção, por meio da educação permanente das equipes não especializadas.

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Além disso, o caminho inverso também é percorrido, quando o teleatendimento promove a aproximação entre os profissionais dos diferentes pontos das redes de atenção e a comunidade na qual o paciente está inserido, ampliando as possibilidades de articulação intersetorial.

Ao viabilizar o cuidado em ambientes familiares — como o domicílio ou a unidade de saúde mais próxima — a telessaúde também reduz a necessidade de deslocamentos. No contexto do TEA, minimizar estressores, especialmente para indivíduos com maiores níveis de suporte, pode ser uma forma eficaz de otimizar as intervenções terapêuticas. No contexto das intervenções naturalísticas, essa proximidade pode permitir utilizar a ambiência a favor da continuidade dessas intervenções, fortalecendo o envolvimento dos cuidadores no processo terapêutico e as intervenções mediadas por cuidadores.

É necessário reconhecer que a implementação da telessaúde no cuidado ao TEA exige adaptações específicas. Ferramentas de avaliação devem ser ajustadas ao formato remoto, os profissionais precisam desenvolver habilidades para conduzir observações clínicas à distância e, principalmente, é fundamental garantir equidade no acesso digital, promovendo inclusão tecnológica entre profissionais, pacientes e familiares.

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Apesar desses desafios, o potencial transformador da telessaúde é inegável — especialmente em países com grandes desigualdades regionais. Entretanto, para que a telessaúde atinja seu pleno potencial, é essencial que não se limite apenas a replicar à distância os mesmos modelos fragmentados de atendimento individual que já vem se mostrando insuficientes.

Mais do que uma ferramenta pontual, a telessaúde deve ser compreendida como parte integrante de modelos de cuidado estruturados, contínuos, intersetoriais e centrados na pessoa.

*Mônica Molina é reumatologista e coordenadora médica do Proadi-SUS na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo

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