O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é conhecido por comentários absurdos, esdrúxulos ou, em outras palavras, sem pé nem cabeça. Ainda no primeiro mandato na Casa Branca (2017-2021), ele apostou em uma série de declarações falsas ou enganosas – 30.673 vezes, segundo um cálculo do jornal americano The Washington Post. Era de se esperar que seguisse o mesmo caminho ao retornar à Presidência, em 20 de janeiro. Mas, agora, a situação parece ter sido agravada, muito em razão de estar cercado de seguidores controversos e, sobretudo, absolutamente fiéis.
Ao contrário dos quatro anos de governo anteriores, Trump deixou de operar sozinho. No passado, quando o republicano disseminava informações falsas, seus assessores tentavam reverter o cenário e minimizar os problemas. Hoje, o presidente dos Estados Unidos está acompanhado de uma trupe que se utiliza de uma “máquina de besteiras”, conforme definiu a especialista em desinformação Kate Starbird em uma palestra no mês passado, como instrumento político. Ela afirmou que o esquema está “interligado à mídia digital, foi efetivamente alavancado por movimentos populistas de direita e agora está afundando na infraestrutura política deste país e de outros”.
Há uma pluralidade de casos. O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., ativista antivacina e entusiasta de práticas pouco ortodoxas da medicina, alegou que a vacina contra sarampo mata pessoas rotineiramente todos os anos – uma afirmação sem qualquer comprovação científica. No primeiro dia do novo governo, secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, anunciou o cancelamento de um contrato de US$ 50 milhões (cerca de R$ 286,3 milhões) para preservativos na Faixa de Gaza, definindo a iniciativa como “um desperdício absurdo de dinheiro do contribuinte”. O projeto, na realidade, tinha como objetivo a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis na província de Moçambique, também chamada Gaza, não no enclave palestino.
De todo modo, as fake news se espalharam pelas redes sociais, dando força ao discurso de Trump sobre austeridade e cortes de gastos em nível federal. Ainda sobre contratos cancelados, a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, comemorou o bloqueio de US$ 600 mil para o que chamou de “estudos dos ciclos menstruais de homens trans”. A pesquisa, na verdade, analisava o uso de fibras naturais como algodão, lã e cânhamo em produtos de higiene feminina, como absorventes.
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Influenciadores no centro
Além da equipe oficial, Trump deu voz e espaço para influenciadores conservadores. Entre eles está Brian Glenn, do Real America’s Voice, um canal de streaming e TV a cabo de direita, com teor conspiracionista. Glen entrou no centro dos holofotes após condenar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, por não usar terno durante sua reunião na Casa Branca, no mês passado. “Muitos americanos têm problemas com o fato de você não respeitar o cargo”, disse ele, impulsionando as críticas da ala ultradireitista a Zelensky.
Em entrevista ao jornal americano The New York Times, Audrey McCabe, analista da Common Cause, uma agência de vigilância governamental apartidária, afirmou que o governo Trump emprega uma estratégia de “sobrecarga de desinformação”, tanto sobre os seus oponentes quanto sobre o próprio Judiciário. “Como podemos reagir a isso quando vem de alguém que foi eleito presidente e daqueles que ele decidiu ter por perto?”, questionou ela.
A estratégia lembra uma fala do ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, em uma entrevista à emissora americana PBS, em 2019. Já no primeiro mandato do republicano, a sobrecarga de desinformação era a chave para o funcionamento do governo.
“O partido da oposição é a mídia. E a mídia só pode, porque eles são burros e preguiçosos, eles só podem se concentrar em uma coisa de cada vez. Tudo o que temos que fazer é inundar a zona. Todos os dias nós os atacamos com três coisas. Eles vão morder uma, e nós faremos todas as nossas coisas. Bang, bang, bang. Esses caras nunca — nunca serão capazes de se recuperar”, afirmou.
Além disso, pouco antes da volta de Trump à Casa Branca, o presidente e dono da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou que a empresa encerraria seu programa de verificação de fatos por terceiros no Facebook, Instagram e Threads A empresa trocou a análise pelas “notas da comunidade”, um esforço no qual os usuários, sem qualificação técnica, corrigem informações. O método já era utilizado pelo magnata Elon Musk no X, antigo Twitter.
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Aposta dobrada
Musk é um dos maiores aliados do republicano, estando à frente do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, em inglês). A força-tarefa liderada pelo empresário busca enxugar a máquina pública, incluindo a demissão de milhares de funcionários federais e a redução, ou fechamento, de agências do governo. No X, a história dos preservativos em Gaza teve eco forte. Posts que citam o caso foram vistos mais de 111 milhões de vezes nas primeiras 24 horas, de acordo com dados do Tweet Binder da Audiense, que monitora o conteúdo da rede social.
Trump não recuou e, pelo contrário, investiu na conspiração. Ele alegou que os Estados Unidos não gastaram US$ 50 milhões, mas US$ 100 milhões em preservativos para membros do grupo palestino Hamas, em guerra com Israel desde outubro de 2023. O líder americano, inclusive, disse que as camisinhas foram usadas “como um método de fazer bombas”, sem apresentar qualquer forma de comprovação.
A USaid, agência de ajuda humanitária dos Estados Unidos que entrou na mira de Musk, teve milhares de contratos cancelados por alegações, por vezes sem embasamento, da administração. Tudo isso, claro, impulsionado por aliados, influenciadores, programas de TV e pela Presidência. O que parece estar acontecendo é algo que Trump, em 2021, já havia adiantado: “Se você disser o suficiente e continuar dizendo, eles começarão a acreditar em você”.