O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi mais moderado que o esperado pelos analistas ao impor uma tarifa mínima de 10% às importações do Brasil. As primeiras avaliações do mercado, no início da noite desta quarta-feira 2, convergem para o fato de que o Brasil ficou no piso do tarifaço anunciado pelo republicano hoje na cerimônia nos jardins da Casa Branca em que assinou o ato que institui o regime de tarifa recíprocas de importação para cem países. A China, o principal alvo de Trump com o tarifaço, pagará uma taxa mínima de 34%. Já a União Europeia foi taxada em 20%.
“Em relação ao que se esperava, a tarifa para o Brasil veio bem mais moderada”, afirma Gustavo Sung, economista-chefe da Sun Research. Segundo ele, como o país já registra déficit comercial com os Estados Unidos, o impacto sobre a economia deve ser menor que o sentido por outros parceiros comerciais dos americanos. “De qualquer forma, os setores que exportam para os Estados Unidos serão sim os mais afetados”, acrescenta.
Entre os artigos exportados pelo Brasil para lá, estão os produtos siderúrgicos. O Brasil detém uma fatia de 16% do total de importações americanas de aço, o que o coloca como o segundo maior fornecedor, atrás apenas do Canadá. Em fevereiro, Trump já havia anunciado uma sobretaxa de 25% sobre o aço e o alumínio despachados pelo Brasil. Não está claro, contudo, se a tarifa mínima de 10% anunciada hoje será somada ou não a essa alíquota, resultando numa taxa total de 35%.
Marcos Freitas, analista de macroeconomia da AF Invest, também esperava uma pancada maior de Trump no Brasil. “A gente esperava que fosse algo maior do que o anunciado, mas, no geral, os países da América Latina tiveram algum alívio, com exceção do México.”
Os efeitos do tarifaço de Trump não se restringem ao comércio exterior. Para os analistas, o recrudescimento do protecionismo americano também devem repercutir em outros aspectos da economia brasileira, como a taxa de câmbio e a inflação. Para André Valério, economista sênior do Banco Inter, “o real deve sofrer pouco”. Primeiro, porque o impacto das tarifas recíprocas sobre a balança comercial deve ser pequeno, segundo o analista, “uma vez que o fluxo comercial com os Estados Unidos não é o mais relevante”. Valério acrescenta que os setores que devem ser mais atingidos “não são altamente representativos” na pauta de exportações para lá.
O economista do Inter cogita ainda que a situação pode ser favorável ao Brasil. “O efeito líquido das tarifas pode ser positivo, especialmente se houver retaliação por parte da China e da Europa”, diz. Como anunciado hoje por Trump, a China pagará uma tarifa mínima de 34% à alfândega americana. Já a União Europeia será taxada em 20%.
“O Brasil tende a ganhar market share para suas exportações, à medida que essas regiões direcionem suas demandas para outro lugar, particularmente o agro, que sofre grande competição com o agro americano.” Segundo Valério, como os produtos brasileiros estarão entre os menos taxados por Trump, devem se tornar “relativamente mais competitivos em relação aos outros países, o que pode permitir maiores exportações aos Estados Unidos”.