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Chegada do Mounjaro ao Brasil abre novo capítulo na batalha pelo emagrecimento

A cena se repete entre almoços de negócios, reuniões de políticos, eventos com celebridades e até encontros familiares. Quando o sujeito é indagado sobre o motivo do espantoso emagrecimento, revela, com um discreto sorriso: “É o Dr. Mounjaro”. Anedotas à parte, poucos medicamentos movimentaram tanto o mercado e a internet antes de sua chegada oficial ao Brasil quanto o produto criado pelo laboratório americano Eli Lilly. Esperado ansiosamente por uns, já importado por outros, finalmente o remédio à base de tirzepatida, desenvolvido para controlar o diabetes e a obesidade, capaz de levar a perdas de peso antes impensáveis com um fármaco, tem data de lançamento no país: 7 de junho.

A notícia pavimenta mais um capítulo da revolução pela qual passa o tratamento de duas condições de proporções crescentes e epidêmicas: o diabetes, realidade para ao menos 10% dos cidadãos, e sobretudo a obesidade, que já afeta 20% dos brasileiros. Daí o interesse, por vezes exagerado, por atalhos químicos para a dieta, no chamado uso off-label. Em outras palavras: o que foi liberado para o diabetes é também usado para o emagrecimento. Apesar dos resultados bem-­vindos e expressivos, é natural que o Mounjaro e outros trunfos celebrados da biotecnologia venham cercados de algumas ponderações. Para começar: não podem ser vistos como fórmulas milagrosas contra doenças crônicas, que exigem ajustes no estilo de vida e acompanhamento médico.

arte Mounjaro

O anúncio da estreia da medicação no Brasil ocorre quase dois anos após a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para que fique claro, o Mounjaro foi liberado por aqui para tratar o diabetes tipo 2, mas a Eli Lilly já submeteu ao órgão regulatório o pedido de sinal verde para a obesidade também. A demora entre a validação da agência e o lançamento se justifica: a farmacêutica só estava disposta a introduzir o produto quando tivesse meios de atender à demanda. “Como se trata de uma doença crônica, de terapia contínua, queremos garantir, tanto quanto possível, um tratamento ininterrupto para os pacientes”, diz Daniel Binette, presidente da Eli Lilly no país.

A tirzepatida vem fazer concorrência direta com o medicamento que inaugurou a categoria das injeções semanais para controlar os níveis de glicose no sangue e o peso: a semaglutida, da dinamarquesa Novo Nordisk, base dos famosos Ozempic e Wegovy. Um paralelo entre as empresas e seus produtos ajuda a entender a quem eles se destinam: da mesma forma que o Ozempic, o Mounjaro visa atender pacientes com diabetes tipo 2; já o Wegovy é a escolha mais direta para quem convive com a obesidade. Tais drogas tendem a ser prescritas quando mudanças de hábito e tratamentos iniciais com outros fármacos (no caso do diabetes) são insuficientes. “Há uma enorme expectativa da classe médica em torno da tirzepatida, uma vez que os resultados das pesquisas e do uso na vida real em diversas partes do mundo demonstram uma alta potência para o controle da glicemia e a perda de peso”, afirma o médico Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

PERIGO NA ESQUINA - Versões falsificadas e manipuladas de tirzepatida e semaglutida: brasileiros expostos a fórmulas sem validação e controle de qualidade
PERIGO NA ESQUINA - Versões falsificadas e manipuladas de tirzepatida e semaglutida: brasileiros expostos a fórmulas sem validação e controle de qualidadeiStock/Getty Images
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O lançamento, amparado pelo aval da Anvisa, se dá na esteira de um conjunto de dez estudos envolvendo, ao todo, mais de 19 000 pessoas com diabetes tipo 2 pelo mundo, inclusive no Brasil — por aqui, 1 500 voluntários participaram deles. O grande destaque, nesse sentido, foi revelado pelos testes de hemoglobina glicada, exame de sangue que dá uma média trimestral dos níveis de glicose circulantes. Pacientes com diabetes em uso do Mounjaro apresentaram índices muito próximos aos de pessoas sem a doença. Outra leva de ensaios clínicos, por sua vez, se debruçou sobre os efeitos no emagrecimento. As conclusões, até o momento, demonstram que as canetas de aplicação semanal da Eli Lilly são seguras e eficazes tanto no contexto do diabetes como no da obesidade. Está aí um dos motivos pelos quais a companhia sediada em Indianápolis, nos Estados Unidos, se tornou a farmacêutica com o maior valor de mercado do globo, batendo 790 bilhões de dólares neste mês.

O Mounjaro deve desembarcar nas drogarias em seis versões (de 2,5 a 15 mg de tirzepatida), a fim de viabilizar a personalização do tratamento e permitir o ajuste da dosagem de acordo com a resposta dos pacientes. A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) definiu como preço máximo de venda 3 791 reais por caixa para um mês de tratamento, tendo como base os impostos de São Paulo. O valor final para o consumidor, no entanto, ainda não foi divulgado. Para se ter ideia, o Ozempic custa entre 1 000 reais e 1 300 reais e o Wegovy, entre 1 230 reais e 2 370 reais.

RIVALIDADE - Eli Lilly versus Novo Nordisk: concorrência capitaneada por Mounjaro e Ozempic
RIVALIDADE – Eli Lilly versus Novo Nordisk: concorrência capitaneada por Mounjaro e Ozempic./Shutterstock

Por falar na concorrência, um estudo controlado e financiado pela Eli Lilly comparou diretamente a tirzepatida com a rival entre 751 pessoas com aproximadamente 100 kg, divididas aleatoriamente em dois grupos. A tirzepatida promoveu uma redução, em média, de 20% do peso corporal (por volta de 22 kg), enquanto a semaglutida chegou a 14% (cerca de 15 kg a menos). Investigações seguem em curso para entender, na vida real, suas conquistas e os limites.

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A tirzepatida é a primeira medicação da história de uma classe terapêutica chamada de duplos agonistas. Enquanto a semaglutida mimetiza um hormônio naturalmente produzido pelo corpo para balancear as taxas de açúcar no sangue e ampliar a sensação de saciedade, a molécula do Mounjaro imita dois deles, o que potencializa sua ação. Além do diabetes e da obesidade, ambos os fármacos são avaliados, hoje, diante de outras condições prevalentes que atormentam milhões de pessoas, como insuficiência cardíaca e gordura no fígado. A tirzepatida, inclusive, se tornou uma opção inédita de tratamento para a apneia do sono, distúrbio marcado por roncos e interrupções temporárias na respiração durante o repouso noturno e comumente associada ao excesso de peso — foi aprovada também para esse objetivo nos Estados Unidos.

PANDEMIA - 1 bilhão de pessoas com obesidade: desafio de saúde do século
PANDEMIA - 1 bilhão de pessoas com obesidade: desafio de saúde do séculoMontagem com imagens de Adobe Firefly/.

A alta expectativa pela estreia oficial no Brasil, insista-se, exige algumas precauções e reflexões. Uma delas tem a ver com a cultura de emagrecimento insuflada pelas redes sociais. É o que instiga pessoas a utilizarem o Mounjaro apenas para entrar em forma ou melhorar a estética, por vezes sem orientação de um especialista. O tema viralizou quando personalidades dentro e fora do país mencionaram tirar proveito das injeções semanais. O bilionário Elon Musk teria perdido 18 kg com essa estratégia. Por aqui, mesmo sem a droga à venda nas farmácias, artistas como Wesley Safadão e Jojo Todynho relataram o uso. Mas montagens com fotos de antes e depois não devem servir de parâmetro exclusivo para essa tomada de decisão. “Inclusive a existência de possíveis efeitos colaterais, alguns até mais severos, reforçam a necessidade do acompanhamento médico regular”, pontua Dornelas. As reações mais frequentes, embora administráveis, são náuseas, vômito e diarreia.

Tampouco se deve encarar as picadas uma vez por semana como o passaporte definitivo para um corpo mais esbelto ou a cura da obesidade. “Os estudos têm mostrado que a interrupção do tratamento com essa nova geração de remédios implica o reganho de ao menos um percentual do peso perdido”, afirma o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto. Isso só ressalta o caráter crônico da condição. “Eu não acredito em uma bala de prata que, sozinha, poderá resolver doenças tão complexas como o diabetes e a obesidade”, diz o endocrinologista Fabio Trujilho, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. “Mas tenho convicção de que a tirzepatida será uma grande arma a favor dos pacientes com a devida indicação.”

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arte Mounjaro

Nesse sentido, convém alertar, para garantir a segurança e a eficiência esperadas, é preciso utilizar a arma de verdade, não as saídas alternativas e falsificadas por aí. No hiato entre o registro da droga e o anúncio do lançamento, pulularam postagens e ofertas de tirzepatida manipulada, por exemplo, algo sobre o qual não há controle nenhum. “É essencial que os pacientes tenham a certeza de encontrar a medicação de origem conhecida e em condições adequadas de armazenamento”, frisa Dornelas. Posicionamentos de entidades médicas como a Sbem vão direto ao ponto, cobrando cuidados com “a crescente, preocupante e perigosa” prática de apelar para fórmulas elaboradas sem os princípios ativos originais e o rigor da linha de montagem das farmacêuticas.

No horizonte, tudo leva a crer que a família de Mounjaro e Ozempic ganhe outras companhias. A queda da patente da semaglutida, por exemplo, está prevista para 2026 e já existem laboratórios nacionais trabalhando em versões “genéricas”. Muito antes disso, porém, assistiremos à chegada de novos “primos” de uso diário dessas moléculas. A empresa brasileira EMS anunciou para este ano a comercialização — já avalizada pela Anvisa — de dois remédios baseados na liraglutida, um para diabetes, outro para obesidade. O aumento das opções e das ofertas é bem-vindo sobretudo diante da dificuldade de se domar a glicemia ou o peso apenas com mudanças no estilo de vida — haja vista o efeito sanfona — e dos obstáculos sociais para que a maior parte dos cidadãos tenha acesso a essas novas medicações, que são caras e estão por ora indisponíveis na rede pública.

FENÔMENO DIGITAL - Oprah Winfrey, Elon Musk, Jojo Todynho e Wesley Safadão (em sentido horário): famosos que divulgaram o uso de Mounjaro nas redes sociais e na imprensa
FENÔMENO DIGITAL – Oprah Winfrey, Elon Musk, Jojo Todynho e Wesley Safadão (em sentido horário): famosos que divulgaram o uso de Mounjaro nas redes sociais e na imprensaMichael Kovac/Getty Images; Shawn Thew/EPA/Bloomberg/Getty Images; @jojotodynho/Instagram; @wesleysafadao/Instagram
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Mas, em face do desafio da obesidade e de suas comparsas metabólicas — tanto para os indivíduos e suas famílias como para a própria sustentabilidade do país —, é de esperar que o barateamento e a incorporação de tratamentos mais modernos no SUS venham a se tornar uma realidade. O Dr. Mounjaro, tão celebrado e esperado, é evidente, não existe. Porém, como toda piada, tem lá seu fundo de verdade. Quando médicos guiados por princípios éticos e científicos se aliam à alta tecnologia, o destino de seus pacientes certamente será mais saudável e feliz.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2025, edição nº 2936

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