O número de casos de câncer colorretal poderá aumentar mais de 20% no Brasil até 2040, prevê uma nova pesquisa da Fundação do Câncer divulgada nesta quinta, 27. Envelhecimento populacional, hábitos pouco saudáveis e falta de programas de rastreamento precoce são apontados como os principais fatores responsáveis pelo incremento nos diagnósticos.
O estudo se baseia na análise de dados nacionais colhidos junto aos Registros de Câncer de Base Populacional (RCBP), ao Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e às projeções populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atualmente, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), ocorrem 45 630 novos casos de câncer colorretal anualmente no país. Pelos cálculos dos pesquisadores, esse número saltará para 71 050 em 2040.
O trabalho da Fundação do Câncer evidencia que quase 90% dos diagnósticos no futuro afetarão homens e mulheres acima dos 50 anos – o que destaca o peso da idade na maior propensão a tumores no intestino grosso e no reto.
No recorte por regiões, o Centro-Oeste e o Norte são as que apresentam os maiores índices de aumento – com alta de 32,7% e 31,3%, respectivamente. O Sudeste registra o menor incremento (18%), ainda que represente a principal região em números absolutos de diagnóstico. A incidência da doença é bastante equivalente entre os sexos feminino e masculino.
“Mais do que números, trazemos um alerta para a necessidade de ampliar urgentemente a prevenção do problema”, destacou o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, diretor-executivo da Fundação do Câncer.
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O que está por trás do aumento?
Para o epidemiologista Alfredo Scaff, coordenador do estudo, tudo leva a crer que o envelhecimento populacional seja a causa mais importante do crescimento de novos casos nos próximos anos. “A maior expectativa de vida é uma conquista da nossa sociedade, mas sabemos que o câncer acomete mais idosos do que outras parcelas da população”, esclarece.
Outra razão apontada pelos especialistas é a baixa adesão a um estilo de vida saudável, a começar pela alimentação. “Uma pessoa que come poucas frutas, verduras e legumes, que são fontes de fibras, e ingere muita carne vermelha, embutidos e produtos ultraprocessados tem uma maior tendência a desenvolver o câncer colorretal”, expõe Scaff.
A inatividade física e o tabagismo estão entre os outros fatores que contribuem para a transformação maligna das células no intestino.
Por fim, a falta de um protocolo brasileiro de rastreamento do câncer colorretal, adotado de forma padronizada por serviços públicos e privados, é considerada um elemento a mais a favor dos números preocupantes da doença. Scaff pontua que, nos sistemas europeu e americano, há uma indicação oficial de que o exame de colonoscopia seja feto a partir dos 50 anos de idade mesmo quando inexistem sintomas suspeitos.
Métodos como esse, bem como a pesquisa de sangue oculto nas fezes, ajudam a detectar lesões no intestino antes que elas se tornem tumores com potencial de se espalhar. “Quando tratado em estágios iniciais, o câncer colorretal tem altíssima chance de cura”, destaca o médico.
O trabalho da Fundação do Câncer traz, portanto, um alerta tanto para a sociedade, que pode se engajar em cuidados mais ativos com a saúde, como para profissionais, gestores e governos, que precisam buscar uma melhor infraestrutura de assistência e rastreamento a fim de resguardar boa parte da população.