Justin Trudeau, em seus últimos dias no poder, chorou, Benjamin Netanyahu está furioso pela abertura de um canal direto entre Estados Unidos e Hamas. A Polônia está pensando em armas nucleares – e a Alemanha também. O inabalável amigo Vladimir Putin recebeu uma ameaça daquelas e o aiatolá Khamenei agora tem uma carta que diz em termos nada sutis: negocie ou então… A política externa e comercial de Donald Trump parece uma blitzkrieg, uma sucessão estonteante de ameaças e propostas de conciliação.
Algumas são claramente absurdas, como dizer repetidamente que o Canadá será incorporado aos Estados Unidos como mais um estado. Nem Vladimir Putin foi tão agressivo, nas palavras, em relação à Ucrânia, escrevendo um longo ensaio para justificar o que vê como um destino comum. Foi a falta de respeito pelas normas da civilidade no tratamento dispensado à Ucrânia, embora não seja este o único tema, que estarreceu o mundo e provocou uma corrida às explicações.
Trump tem uma visão, ou uma doutrina, que no final trará mais bem ao mundo ou provocará resultados sinistros, como a predominância da lei do mais forte e a subjugação dos mais fracos?
E mesmo que seus métodos sejam toscos, para dizer o mínimo, não é desejável que ele procure acabar com a guerra na Ucrânia seguindo princípios pragmáticos – o que a Rússia tomou jamais retornará -, negociar um acordo que previna um conflito quase inevitável que um Irã nuclearizado provocaria, fazer acordos para conseguir a libertação de reféns do Hamas (exatamente como Israel) e deixar a Europa pagar a conta pela própria segurança?
TOLOS OU HERÓIS
“O que importa para Trump não é a riqueza ou a ideologia de um país, mas o poder que tem. Ele acredita em dominar os fracos e tratar os fortes com deferência. É uma estratégia tão antiga quanto o tempo. Chama-se realismo”, escreveu no New York Times a editorialista Farah Stockman.
Foi ela quem trouxe Tucídides e sua História da Guerra do Peloponeso para discutir a grande tradição realista. Para refrescar as memórias enferrujadas, o episódio referido é o diálogo de Melos, a discussão entre os poderosos atenienses e os neutros melianos, intimados a render-se e pagar tributo à poderosa cidade-estado. Os melianos assumiram uma posição com argumentos que podem ser comparados aos da Ucrânia contemporânea: tinham direito a ser independentes, outros estados neutros se tornariam hostis a Atenas se Melos fosse subjugada e seria desonroso se render sem luta.
“Os poderosos fazem porque podem fazer, os fracos sofrem o que devem sofrer”, foi a impiedosa resposta dos atenienses. Melos foi subjugada e colonizada, com todos os homens executados e as mulheres e crianças vendidas para a escravidão.
“Foram heróis ou tolos?”, pergunta Farah Stockman. “Se você os vê como heróis, é um internacionalista liberal que acredita que a paz e a segurança dependem de governos justos guiados por regras ilustradas. Se você acha que foram tolos, é um realista”.
É uma visão muito americana, obviamente. Defender a soberania ucraniana é, para muitos europeus, um ato de realismo, considerando-se que o expansionismo russo não vai parar na Ucrânia.
NOVA DOUTRINA MONROE
Mas Trump com certeza está armando uma estratégia pragmática que sacrifica princípios consagrados. Para Ricardo Israel, do Infobae, Trump está propondo uma “doutrina Monroe rejuvenescida”, agora não mais voltada para os velhos impérios coloniais europeus, mas para a China. Nesse rearranjo, ressurgem “as linhas vermelhas que foram tão proeminentes durante a Guerra Fria, significando clareza em torno do que os Estados Unidos estão dispostos a fazer como aquilo que não vão fazer, tanto contra os adversários, quanto, e aqui há uma novidade, contra os que se supunha que eram os amigos”.
Ricardo Israel também evoca a palavra realismo para lembrar que a ordem liberal do pós-guerra só foi possível porque por trás dela “estava o imenso poder econômico, político e ideológico dos Estados Unidos que conteve a União Soviética, embora se enfrentassem muitas vezes através de terceiros países”.
Tentar ter uma visão histórica dos atuais acontecimentos ajuda a não tirar conclusões precipitadas. Ainda estão começando a ser escolhidos os juízes que darão o veredicto da história sobre as guinadas de Trump, nos Estados Unidos e no mundo em geral. “A maioria das pessoas, na verdade, não se dá ao trabalho de descobrir a verdade, mas é muito mais inclinada a aceitar a primeira história que ouve”, escreveu Tucídides há mais de 2,4 mil anos, dando uma perfeita definição do sucesso das fake news e também da falta de clareza que a estridência do momento provoca.