É natural que um Brasil e Argentina produza, antes e depois da partida, ansiedade associada a medo pelo resultado. É clássico que não deixa pedra sobre pedra, para o aqui e agora, e o futuro. Não poderia ser diferente, é claro, depois do 4 a 1 da terça-feira 25, no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2026. Até o técnico do escrete (agora ex-técnico) foi obrigado a concordar com a imprensa hermana — “com perfume de felicidade”, na manchete do jornal La Nación, ou um “baile histórico”, na chamada do diário Olé . “É uma derrota marcante, tenho que reconhecer isso”, disse Dorival Jr. depois da partida. “Sei o tamanho, acredito muito no meu trabalho, no desenvolvimento de tudo isso. É um processo complicado, difícil. Mas não tenho dúvidas de afirmar que encontraremos o caminho.”
Na verdade, o vexame em Buenos Aires foi o empurrão que faltava para deixar Dorival Jr. em estado de cai não cai. E então, na sexta-feira, 28, ele foi demitido. A rigor, contudo, nem fazia tanta diferença caso permanecesse no cargo. O caos atávico da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, não depende apenas do treinador de plantão. “Gosto do Dorival como treinador de clube, mas na seleção brasileira não dá mais”, disse o ex-jogador Casagrande, hoje comentarista, antevendo o que viria a acontecer. “É hora de mudar, senão vamos passar ainda mais vergonha.”
Dorival dirigiu a canarinho, até a tragédia portenha, entre amistosos e partidas oficiais, em dezesseis oportunidades, com sete vitórias, sete empates e duas derrotas. Estatisticamente, um desempenho mediano, o que já seria um problema. Quando se olham a qualidade do jogo e as perspectivas futuras de evolução, a coisa piora. Mesmo nas vitórias — à exceção de ótimos noventa minutos contra a Inglaterra, em Wembley, na vitória por 1 a 0, com gol de Endrick —, a mediocridade imperou.

Um outro modo estatístico, e mais adequado, de entender o nó do futebol verde-amarelo é, insista-se, olhar para a CBF, e não para o técnico da hora. Na gestão do presidente Ednaldo Rodrigues, no posto desde 2021, o Brasil empilhou fracassos: foram duas copas América, em 2021 e 2024 — a primeira delas com uma derrota na final para a Argentina. Na Copa de 2022, no Catar, a seleção foi eliminada nas quartas de final pela Croácia. Para além disso, o escrete sofre para se manter na zona de classificação para o Mundial do ano que vem: está em amargo quarto lugar. Salvo uma catástrofe, estará na Copa, mesmo com um futebol medíocre. Lembre-se, ainda, que em 2023 o Brasil sub-20 foi eliminado do Mundial da categoria ao ser derrotado por Israel. No Sul-Americano Sub-20, este ano, a Argentina aplicou tonitruantes 6 a 0 nos amarelinhos na estreia, embora o Brasil tenha se recuperado e erguido a taça.
O futuro, o que diz? Ednaldo acaba de ser reeleito para novo mandato e permanecerá na chefia da CBF até 2030. Não há muito a celebrar, e não apenas pelos resultados em campo. A chapa vitoriosa de Ednaldo tinha um lema correto: “Por um futebol mais inclusivo e sem discriminação de qualquer natureza”. Um detalhe, de sobeja incorreção: ela era formada exclusivamente por homens. A diversidade de araque, portanto, não autoriza bons e alvissareiros prognósticos.
Como a Copa de 2026 nos Estados Unidos, México e Canadá está logo ali, na esquina, não se supõe que dê tempo para uma revolução positiva. Mas é urgente, agora mais do que nunca, um freio de arrumação na equipe que entrará em campo. O Brasil já passou por vexames como perder para Honduras e foi laboratório para técnicos ruins. Mas Ednaldo bateu recorde de trapalhadas, com o suporte dos clubes e federações que apoiaram 100% a reeleição. “E ele ainda marca a votação às vésperas do jogo contra a Argentina”, anotou o ex-jogador e comentarista Neto.

A saída de Dorival Jr., celebrada como solução, é um problema. Quem, afinal, ocupará o lugar dele no banco de reservas? Um dos nomes mais cotados é o do treinador do Flamengo, Filipe Luís, jovem promissor e de carreira internacional como jogador. Fala-se em Renato Gaúcho e Rogério Ceni. Sonha-se com uma invencionice que nunca prosperou, Carlo Ancelotti, do Real Madrid. A CBF garantiu tê-lo convidado, no ano passado, e bastaria acertar os ponteiros e assinar o contrato, mas o italiano nunca confirmou a informação.
Os próximos meses serão tensos na pátria de chuteiras. Poucas vezes a seleção esteve tão, mas tão por baixo, apesar de ter em seu plantel o melhor do mundo segundo a Fifa, Vinicius Jr. E quem sabe, um dia, voltemos a sentir o perfume de felicidade a que se refere a imprensa da Argentina. Impossível não é. Em 1994, o Brasil quase não passou pelas eliminatórias, chegou aos Estados Unidos destrambelhado, e venceu. Mas será preciso, uma vez mais, mexer em toda a estrutura, a começar pelos dirigentes. Dorival é apenas o bode expiatório, e uma evidência não pode ser apagada das enciclopédias. No rol de vergonhas, depois do 7 a 1 contra a Alemanha — “gol da Alemanha, gol da Alemanha!” —, só mesmo os 4 diante da Argentina. Nenhum torcedor merece isso.
Publicado em VEJA de 28 de março de 2025, edição nº 2937