O vice-presidente Gerald Alckmin defendeu, nesta segunda-feira, 24, que o método de cálculo da inflação a ser levado em conta oficialmente pelo Banco Central em sua política de juros desconsidere a variação nos preços dos alimentos e, talvez, até mesmo da energia. “Não adianta aumentar juros, que não vai baixar o barril do petróleo”, disse Alckmin. Ele citou como exemplo os Estados Unidos, onde o Federal Reserve (Fed) tem como prática olhar mais para o núcleo da inflação, sem seus elementos mais voláteis ou sazonais.
Do ponto de vista técnico, a discussão até faz sentido, mas levantá-la nesse momento, em que o governo procura soluções desesperadas para baixar a inflação e os juros, ao mesmo tempo em que adota medidas de estímulo ao consumo, apenas passa a mensagem de oportunismo político ou de que se trata de mais uma pressão sobre o Banco Central.
“A discussão é válida, mas o timing é realmente complicado”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Ele explica que, nos Estados Unidos, o núcleo não costuma se distanciar tanto da inflação cheia. Já em países como o Brasil, com volatilidade muito grande nos preços de alimentos e combustíveis, por exemplo, o índice cheio se distancia mais do núcleo. “Na atual conjuntura, porém, a proposta do vice-presidente não ia ajudar tanto o Banco Central, porque o núcleo da inflação também está acelerando”, diz Vale. Atualmente, o índice cheio, medido pelo IPCA, está em torno de 5% a 5,1%, enquanto o núcleo da inflação acumulado em doze meses está em 4,2%, mas com tendência de alta.
O Banco Central já se utiliza de diferentes estimativas do núcleo da inflação para embasar sua política de juros, ainda que a meta seja definida pelo índice cheio. O que não existe é um padrão de longo prazo sobre qual cálculo de núcleo deve ser usado. Por isso, as falas de Alckmin devem ser entendidas não como uma sugestão de deixar de divulgar a inflação cheia, mas de ter também um índice do núcleo, com critério bem definido, que tenha mais peso nas decisões do BC e que inclusive pode ser divulgado pelo IBGE junto com o IPCA.
Nos Estados Unidos, são divulgados dois índices: o CPI, com uma cesta fixa de bens e serviços, e o PCE, menos volátil, que leva em conta, por exemplo, a substituição de um item que está caro por outro mais barato pelos consumidores. O primeiro é o que costuma ser divulgado com mais frequência pela imprensa, mas o segundo é o que tem mais peso nas decisões do Fed — e é, inclusive, ele que orienta a meta de inflação americana.
“O ideal seria que a oficialização do uso do núcleo da inflação na política monetária fosse discutida em um momento de calmaria de preços e juros”, diz Vale. “Considerar isso agora, com esse processo de alta, deixa o sabor amargo de que talvez seja mais uma tentativa de interferência do governo para que o Banco Central não precise subir tanto a taxa de juros.”
Nada como escolher o timing errado para enterrar uma boa ideia.